24 de março de 2021

 


UM JOGADOR, UM TIME E UMA CIDADE EM MOVIMENTO

 O cenário atual do futebol profissional de Florianópolis, em especial no que diz respeito ao clube que reside na parte continental da capital do estado, é decadente. Contudo, a história está aí pra mostrar a grandeza do Figueirense, que pode se vangloriar da memória de Aírton Raul de Andrade, o "Pinga".

Nascido na Florianópolis da década de 1950, mais precisamente em 1953, Pinga marcou época no Figueirense Futebol Clube.

Filho do seu Raul, que cuidava do gramado do estádio Orlando Scarpelli, Pinga deixou seu nome na história do alvinegro do Estreito

na década de 1970, um período lembrado com muita saudade por aqueles que viveram essa época.

Foi na década de 1970 que a ponte Colombo Salles foi inaugurada, dando um significativo fôlego para a tradicional ponte Hercílio Luz, o que transformaria o trânsito da cidade.

Nessa década, muitas famílias rumavam para as praias do norte da ilha, como Jurerê e Canasvieiras, ou optavam pelas praias do continente, como a praia da Saudade e a de Itaguaçú, fosse numa Rural Wilys ou de bicicleta, ou a pé.

No apagar das luzes de uma década tão marcante, o Figueirense iniciava a substituição das suas arquibancadas metálicas por arquibancadas de concreto em dezembro de 1979, mesmo ano em que Santa Catarina colocava cinco clubes na série A do campeonato brasileiro.

Em meio a uma época que denunciava o que viria a ser Florianópolis, uma cidade diversa e bem maior do que as pessoas da época poderiam imaginar, o Figueirense ganhava dois catarinenses (1972 e 1974) e fazia suas primeiras participações no campeonato brasileiro.

Aírton Raul de Andrade marcou sua trajetória no Figueirense com 483 jogos e dois títulos estaduais. Atuou no clube no momento em que o futebol de Santa Catarina tentava dar as caras no cenário nacional e teve muita importância para que o alvinegro da capital pudesse apresentar a sua torcida uma história tão linda e vitoriosa.

O cenário atual não é dos melhores para os torcedores do Figueirense mas a salvação pode estar ancorada também na relação da torcida com a história do clube, afinal, vive de passado quem tem.

Um grande abraço à todos.

 

Roberto Carlos Silva e Silva – Bacharel e Licenciado em História

Florianópolis – SC  23/03/2021



                                                     Foto Acervo Placar/1975
                                                    


22 de março de 2021


 SOCIEDADE CARNAVALESCA TENENTES DO DIABO - CARNAVAL DE 1957

Neste final de semana eu e minha esposa estávamos manuseando uns documentos antigos do meu sogro o Senhor Elpídio de Souza Lopes e encontramos um raro documento da tradicional Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo, sociedade essa que eu quando morava no bairro Prainha em Florianópolis, passava em frente todos os dias na década de 1970 e 1980.

Nesta e em outras sociedades carnavalescas que existiam na Ilha , cidade de Florianópolis, eram feitos os Carros de Mutação de acordo com o tema apresentado.

Neste documento que eu encontrei tem todos os nomes da Diretoria de 1957, bem como de todos os funcionários e apoiadores que ajudavam a fazer esses carros que por sinal eram belíssimos. No carnaval de 1957 a Sociedade Carnavalesca Tenentes do Diabo homenageou o Governador Jorge Lacerda, aonde diversos carros tem seus nomes e especificações apresentados.

Devo retornar ao assunto assim que reunir novos materiais em pesquisa.

Grande abraço a todos.

Paulo Coelho  - Administrador/Bacharel e Licenciado em História.




Florianópolis - 22 de março de 2021. 

 


 

19 de março de 2021

 


OS ENGENHOS DE FARINHA DE MANDIOCA DA ILHA DE SANTA CATARINA – Etnografia Catarinense

Dia 12 de março de 2021, terminei a leitura do meu 6º livro do ano, de Nereu do Vale Pereira

 OS ENGENHOS DE FARINHA DE MANDIOCA DA ILHA DE SANTA CATARINA – Etnografia Catarinense

/ Nereu do Vale Pereira. Florianópolis : Fundação Cultural Açorianista, 1993.  208p: il.

Este livro tem como abordagem, um levantamento etnográfico sobre a cultura açoriana estabelecida na Ilha de Santa Catarina, cidade de Desterro, atual Florianópolis após a vinda de Imigrantes Açorianos, a partir de 1748, trazendo o uso dos engenhos que aqui foram adaptados, para a fabricação da farinha de mandioca na ilha.

Falar sobre os Engenhos de farinha para mim é relembrar histórias contadas no âmbito da minha família mesmo nós não temos nascidos na região de Florianópolis e sim do médio Vale do Itajaí. Lembro perfeitamente de ouvir minha mãe e meu avó falarem dos trabalhos que eles prestavam em um Engenho de farinha e possivelmente de cana também (este com a finalidade de fazer açúcar grosso e melado), de um tio da minha mãe que tinha um pouco mais de recursos.

O meu avô materno uma pessoa de quase dois metros de altura nos contava que o cunhado sempre pagava a mais para ele porque ele “rendia” bem mais que os outros que trabalhavam a “jornal” ou seja, por jornada, já a minha mãe contava que quando criança ajudava no engenho do tio e depois “ganhava” umas bonequinhas de açúcar (não sei exatamente o formato e a quantidade), mas a lembrança era bem real e passada de forma feliz.

Voltando ao livro de Nereu do Vale Pereira, sobre os Engenhos de Farinha de Mandioca na Ilha de Santa Catarina, podemos ver que na segunda metade do século XVIII, logo depois que a primeira leva de casais açorianos aqui chegaram por meio de um projeto de colonização da Coroa Portuguesa, até para livrar os habitantes das Ilhas dos Açores da fome extrema que assolava a região.

Os engenhos que lá eram utilizados com outras finalidades devido a mandioca não ser um produto do Continente Europeu, logo foram adaptados ao ambiente de produção e recursos disponíveis locais na ilha. Adaptando os engenhos e com uma grande produção de mandioca na ilha logo a farinha de mandioca se torna o principal produto de exportação não somente da ilha bem como de toda a Província de Santa Catarina durante a o final do século XVIII e por quase todo o século XIX. Somente Desterro chegou a ter aproximadamente oitocentos engenhos de farinha de mandioca.

Por ser a farinha de mandioca um produto de fácil manufatura uma grande quantidade de residências do interior da ilha, tinham um engenho junto a casa de moradia, tendo em vista que esta unidade de produção não ocupava muito espaço e a mão de obra era quase que totalmente familiar. Quando do período da farinhada ou de fazer farinha se usava também a mão de obra de vizinhos e parentes que raramente recebiam em dinheiro por esse serviço e sim em troca de dia ou mesmo em parte da produção.

Por mais interessante que venha a ser a produção de um engenho de farinha na ilha poderia ter peculiaridades diferentes entre si em localidades diversas, tendo em vista que o modo de fazer o engenho estava na cabeça do mestre que seria responsável pela sua execução, bem como os recursos disponíveis como tipo de madeira e espaço disponível. Não existia uma planta única que fosse utilizada para uso em escala até porque a maioria dos mestres que os construíam eram praticamente pessoas analfabetas, mas com grande capacidade de execução.

Por questões de relevo quanto aos rios e regatos um tipo de engenho muito conhecido para o interior do estado não teve aceitação localmente, que é o engenho movido a roda d´agua, dando lugar aos engenhos movidos a boi. O boi como elemento essencial de tração era responsável por movimentar os equipamentos que se encaixavam um ao outro por intrincados mecanismos totalmente feitos a mão e em madeira.

Domar e treinar o boi para uso na canga era uma atividade que levava vários meses, pois o animal, tinha que estar completamente adaptado ao ambiente e com os equipamentos corretos para o árduo e contínuo trabalho no engenho e se alguma coisa fugisse do controle poderia acabar destruindo todo o equipamento.

Produzir farinha de mandioca não era uma tarefa exclusiva da Ilha de Santa Catarina, tendo em vista que em várias regiões da Província e também do país tinham produção, porém em escala muito menor e ainda não com a mesma qualidade. Na verdade, a produção de farinha já era realizada a muito tempo pelos primeiros habitantes dessa terra, ou seja, os nossos indígenas, claro que em um processo muito rudimentar para atender as suas necessidades básicas de alimentação.

Ao decorrer do livro de Nereu do Vale Pereira, são apresentados desenhos, plantas e escalas de como eram produzidos os engenhos bem como suas peças e suas diversas funcionalidades eram produzidos. Também muitas fotografias mostrando os diversos engenhos ainda existentes quando da pesquisa realizada desde a década de sessenta ao final da década de oitenta do século passado e também toda a sociabilidade que a Farinhada ou fazer farinha permitiam nos frios dias de inverno.

A atividade de produção de farinha de mandioca conforme conhecemos, começou o seu ciclo final a partir de 1963, quando começam a chegar os primeiros engenhos elétricos que passam a produzir de forma praticamente industrial e começam a usar o nome de Fecularias. Com a mecanização praticamente se encerra a atividade artesanal, familiar e de grande congregação social nas localidades da atual Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina.

Acredito que de uma forma ou de outra, todos nós temos em um passado não muito distante, através dos nossos ancestrais um forte convívio com a farinha de mandioca como base de alimentação ou mesmo de comércio, conforme já citado no texto devido este produto ser o principal item de exportação da Província de Santa Catarina.

A finalidade deste texto é fazer um breve apanhado sobre o tema dos Engenhos de Farinha na Ilha de Santa Catarina, e recomendo aos que gostem e tenham interesse sobre o assunto, quer seja por interesse histórico e comercial ou mesmo de histórias familiares conforme foi o meu caso, que leiam o livro que acabo de descrever.

Grande abraços à todos.

 

Paulo Coelho – Administrador/Bacharel e Licenciado em História.

 Florianópolis – SC     19/03/2021.

7 de março de 2021

 


O DESMATAMENTO DA ILHA DE SANTA CATARINA DE 1500 AOS DIAS ATUAIS

Dia 23de fevereiro de 2021, terminei a leitura do meu 5º livro do ano, de Mariléia Martins Leal Caruso

Caruso, Mariléia Martins Leal

O desmatamento da Ilha de Santa Catarina de 1500 aos dias atuais / Mariléia Martins Leal Caruso. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1990. 160p.

Este livro tem como abordagem, um levantamento histórico sobre o processo de ocupação e também as práticas relacionadas a cobertura vegetal da Ilha de Santa Catarina, cidade de Desterro, atual Florianópolis, que procura apresentar dados desde 1500 aos dias atuais.

Antes de começar a falar especificamente sobre o livro citado acima vou fazer um comentário de caráter pessoal, tendo em vista, que vai ao encontro com o teor do livro.

No ano de 1982 eu Paulo Coelho um jovem de 18 anos contra a minha vontade fui forçado a “servir” ao Exército Brasileiro como recruta do SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO uma coisa que eu abomino até os dias de hoje. Mas deixando para trás esse infortúnio da minha vida vou entrar no texto sobre o livro em questão.

Conforme citado acima como recruta do Exército fui participar de um acampamento obrigatório (mesmo eu servindo em uma unidade administrativa) e esse acampamento, foi em um campo hoje desativado no Campeche no Leste da Ilha de Santa Catarina em um lugar magnífico que nunca deveria ter sido usado para essa atividade. Fizemos uma incursão por uma mata completamente fechada com árvores gigantes e rios também na localidade dos morros do Rio Tavares. (até hoje tenho uma cicatriz na perna direita devido um pequeno “acidente” lá ocorrido.

Sempre me intrigou a vegetação exuberante da Ilha de Santa Catarina atual Florianópolis, acreditando se tratar de vegetação primária, ou seja, que nunca foi desmatada. Por volta de uns 15 anos atrás eu estava na casa de um amigo no Rio Tavares com uma boa vista para esses morros que acabei de falar e ao ver uma mata muito bem formada perguntei, Pedro essa mata será que é de primeira geração e ele me disse claro que não isso em algum momento já foi tudo desmatado.

Fiquei comigo pensando como que já foi tudo desmatando, andei pelo Sertão do Ribeirão, do Peri do Saquinho, da Lagoinha do Leste e vários outros lugares da Ilha e nunca me pareceu que isso pudesse ter sido já derrubado em algum tempo?

Hoje formado em História pela FAED/UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina, tenho direcionado as minhas leituras para o conhecimento da nossa história política, comercial e de colonização da Ilha de Santa Catariana atual Cidade de Florianópolis capital do Estado de Santa Catarina.

Já em várias leituras anteriores o fator do desmatamento e o fornecimento de lenha e madeira para a exportação a partir de Desterro tem se tornado muito comum e começou a clarear meus conhecimentos quanto a cobertura florestal dessa ilha.

No livro o Desmatamento na Ilha de Santa Catarina a autora nos traz informações muito precisas sobre cada Bioma existente na nossa Ilha e o quanto foi destruído principalmente logo após a chegada dos colonizadores açorianos que tinham como matéria prima para praticamente todas as suas produções a lenha e também a madeira.

Segundo relatos aqui já por volta de do século XVIII, ou seja, no final dos anos 1700 já era visível que os morros haviam sido desmatados, apresentando cicatrizes que denunciavam essa atividade predatória. Somente para conhecimento por volta do século XIX tinham algo em torno de oitocentos engenhos de farinha e mais de cem engenhos ou alambiques de cachaça, bem como inúmeras Caieiras que transformavam conchas de Berbigão e Mariscos em cal para a construção de casas e também vários curtumes de peles que também usavam muita lenha.

Desde o início do século XVI, ou seja, quando o Brasil foi descoberto inúmeros navegadores por aqui passaram e todos falavam da exuberância das matas da Ilha que inclusive quando da vinda dos Açorianos foram citadas como local ideal para esconderijo de invasores, devido a densidade fechada da Floresta. Hoje fica difícil de acreditar que aqui já tivemos exemplares típicos da Mata Atlântica como Canela, Peroba e outras árvores com algo em torno de 40 metros de altura.

Centenas ou milhares de navios que por aqui passaram levaram a vegetação de nossas florestas e mangues como lenha ou madeiras de exportação praticamente de graça, quando isso não era mesmo de graça inclusive por determinação dos governos locais para atender aos pedidos dos capitães de barcos que aqui atracavam.

Comércio muito pouco e as nossas matas viravam bens de troca por qualquer coisa que pudesse ter alguma utilidade para os seus moradores, os valores pagos pelos comandantes das embarcações por milheiro de “achas” de lenha, ou pedaços de praticamente um metro cada, era irrisório.  Com isso os colonizadores que vieram para desenvolver a nossa cidade eram tão pobres que cada vez mais tinha que entrar floresta e mangues a dentro ou subir morros para conseguir lenha e madeira para comercializar com os “de fora’.

Ao falar dos desmatamentos a autora deixa clara que a pressão sobre os nossos Mangues um bioma muito frágil era enorme tendo em vista que por estarem na desembocadura de rios e serem servidos por inúmeros canais os tornavam a forma mais fácil de conseguir lenha para uso em seus engenhos e também para comercializar. O detalhe que ao destruir o Mangue automaticamente estava destruindo também toda a complexa cadeia de vida que esses verdadeiros santuários, envolvem.

Todo um apanhado sobre as tentativas de contenção ao desmatamento devido a urbanização e o crescimento da cidade foi questionado e também uns ridículos processos de reflorestamento com Pinus Eliotis e Eucalipto, espécies invasoras que são chamadas de “deserto verde’ o que não permite que nenhuma espécie sobrevida sob suas sombras  quer seja de fauna e flora e cria um solo totalmente impermeável causando diversos problemas como falta de água nos lençóis freáticos contribuindo para a mudança no ciclo das chuvas em regiões da ilha.

Vou encerrando por aqui o comentário sobre esse livro que muito me emocionou ao fazer a sua leitura, tentando imaginar o quanto de belo e diversificado deve ter sido as florestas e todos os biomas da Ilha de Santa Catarina antes de sua quase total destruição.

Sugiro à todos os que puderem ter acesso a este livro e bem como os demais a esse assunto que leiam para entender o porquê é importante hoje no início da terceira década do século XXI, preservar os nosso recursos naturais , como florestas, dunas, mangues, lagoas e nascentes de rios que nos cercam.

Grande abraços à todos.

Paulo Coelho – Administrador/Bacharel e Licenciado em História.

 Florianópolis – SC     07/032021.

28 de fevereiro de 2021

A HISTÓRIA NATURAL DA ILHA DE SANTA CATARINA

 

HISTÓRIA NATURAL DA ILHA DE SANTA CATARINA – O CÓDICE DE ANTONIO JOSÉ DE FREITAS NORONHA

Dia 12 de fevereiro de 2021, terminei a leitura do meu 4º livro do ano, de Marli Cristina Scomazzon/Jeff Franco/Daniel de Barcelos Falkenberg

 História natural da Ilha de Santa Catarina – O códice de Antonio José de Freitas Noronha/ Marli Cristina Scomazzon/Jeff Franco/Daniel de Barcelos Falkenberg. Florianópolis : Insular, 2017.  112p: il.

Este livro tem como abordagem, um levantamento gráfico sobre a flora existente na Ilha de Santa Catarina, cidade de Desterro, atual Florianópolis realizado em 1803.

As belezas naturais da Ilha de Santa Catarina, com sua exuberância, bem como a sua diversidade, já eram conhecidas desde o século XVI quando por aqui passaram os primeiros navegadores que circundaram o globo, no período das circunavegações organizadas pelas grandes potências desse período, que viam por essas rotas grandes possibilidades de ganho e conquistas. (no texto em questão não vou fazer relação aos nomes destes navegadores todos)

Quando em 1751 o menino José de Freitas Noronha, vindo ou fugindo da fome na região  da Ilha da Madeira em Portugal, talvez ele jamais pudesse imaginar  que além de se tornar oficial militar em Desterro, capital de Província de Santa Catariana, também se tornaria um personagem da História Natural desta Ilha?

Mais de cinquenta anos depois de ter chegado em Desterro já com a patente de Capitão, José de Freitas de Noronha recebe do então Governador da Província de Santa Catarina Coronel Joaquim Xavier Curado uma tarefa ou missão para os militares não muito peculiar as suas funções, que seria de mapear e descrever ou inventariar a espécies de plantas naturais da Ilha de Santa Catarina.

No ano de 1803 o projeto de mapear as espécies de plantas principalmente frutíferas da Ilha de Santa Catarina se desenvolve e é produzido um material com desenhos e especificações conhecidas até o momento da produção, de diversas plantas tais como: Araçá, Angá (Ingá), Banana, Coco Butiá, Indaiá, Tucum, Figos, Fruta do Conde, Gabiroba, Goiabas, Jaboticaba, Maracujá, Orapronóbis, Pitangas entre outras.

Este trabalho foi realizado em 38 pranchas de desenhos em aquarelas que representavam as espécies por ele retratadas, claro eu algumas divergências surgiram depois de ser descoberto esse material de grande valor histórico para a Botânica da Ilha de Santa Catarina, que hoje conhecemos como Florianópolis.

O principal detalhe desse projeto é que ele ficou esquecido por mais de duzentos anos ou, seja por mais de dois séculos ninguém deve a oportunidade de acessar e fazer as suas considerações sobre a qualidade e divergência de sua produção. Foi um “achado” e tanto encontrar essas aquarelas totalmente preservadas conforme no livro são apresentadas.

Muitas das considerações feitas por José de Freitas Noronha realizadas no início do século XIX e usando o linguajar do Português de Portugal, bem como o do gentílico local, sobre a forma, uso e tamanho das plantas, foram comentados por Daniel de Barcelos Falkenberg, especialista em Botânica.

Mesmo com muitas divergências e também contradições, depois de classificadas e revistas de acordo com as atuais classificações de espécies da flora da Ilha e também do Brasil, o trabalho do autor mesmo que duzentos anos depois é de grande valor histórico não somente no campo da Biologia e Botânica como também da história da Ilha de Santa Catarina.

Recomendo à todos que possam ter acesso a esse valioso documento histórico de imagens das plantas que são lindas, mesmo que produzidas por um amador de forma rudimentar e que por ironia do destino ficaram esquecidas por mais de duzentos anos e que por um milagre inexplicavelmente, foram preservadas, com toda a sua exuberância e cores e detalhes. (inclusive o meu Butiá) que hoje tanto tenho estudado sobre ele e a mais de duzentos anos já foi motivo de representação nesse importante documento histórico.

Grande abraços à todos.

Paulo Coelho – Administrador/Bacharel e Licenciado em História.

 Florianópolis – SC     28/02/2021.





14 de fevereiro de 2021

 



A ILHA DE SANTA CATARINA E O CONTINENTE PRÓXIMO.

Dia 30 de janeiro de 2021, terminei a leitura do meu 3º livro do ano, de Olga Cruz

 A Ilha de Santa Catarina e o continente próximo – Um estudo de geomorfologia costeira/Olga Cruz.- Florianópolis

 Ed. da UFSC, 1998  xviii, 276p: il.

Este livro tem como abordagem, a formação geológica da Ilha de Santa Catarina bem como todo o seu eco sistema de praias, mangues, dunas, montanhas, rios, lagoas e também os que aqui habitam ou habitaram em outras eras.

Mesmo sendo um livro de difícil leitura para aqueles que não tem formação em Geografia e outras áreas do conhecimento voltadas à morfologia dos ambientes acima citados e também sendo fruto de um trabalho científico, muitos termos e citações exigem um pouco mais de nossa atenção. (Procurei dar uma ideia do conteúdo sem citar os termos técnicos)

Neste livro podemos ter uma melhor compreensão das características da Ilha de Santa Catarina, atual cidade de Florianópolis e o continente que a rodeia não exatamente a parte continental que também faz parte da cidade com seus Bairros que estão além da parte insular. Neste caso o continente próximo são as montanhas da Serra Geral seus Morros como o do Cambirela, os manguezais da Palhoça, São José e Biguaçu seus rios e suas praias.

Com a leitura do livro pode se verificar por exemplo que mesmo separada pelo mar a nossa Ilha tem uma interdependência com o continente, como por exemplo os morros do Cambirela e do Ribeirão fazem parte da mesma cadeia de montanhas que em eras geológicas estavam tudo ao mesmo nível.

Os mangues do Rio Tavares e Tapera estão na mesma linha que os da Palhoça, os do norte da Ilha estão na mesma linha que os de Biguaçu e Tijucas isso faz com que tudo o que é feito em um lugar afeta a outro pois quebra o equilíbrio que muitos nem tem conhecimento dessa ligação. Ao aterrarmos um mangue no Rio Tavares e na Costeira estamos danificando indiretamente o da Palhoça e visse e versa.

A Ilha de Santa Catarina ou Florianópolis depois da década de 1970 sofre um grande impacto em seus ambientes naturais devido a grande ocupação humana tanto voltada a moradia comércio e serviços bem como o turismo também faz com que vastas áreas de dunas, praias, lagoas e morros sejam modificadas para atender a demanda que se criou.

Grandes áreas de mar foram aterradas para construção de vias públicas e prédios e isso alterou desde o fluxo de chuvas a movimentos de marés, fato esse, são os constantes alagamentos e invasão de marés em áreas residenciais principalmente no sul e norte da  Ilha.

Viajantes estrangeiros ao passar por aqui durante o período das navegações observaram um ambiente completamente diferente do que hoje vivenciamos. A própria vinda dos habitantes que vieram de Portugal, mais especificamente dos Açores também foi um fator de mudanças para a geografia da cidade.

Com uma grande quantidade de gráficos e tabelas, bem como fotografias podemos ter uma visão dos índices pluviométricos médios e também das temperaturas por um grande recorte de tempo e também foram utilizados dados produzidos por fotografias aéreas de períodos distintos para pode fazer a comparação das mudanças.

A destruição das dunas por exemplo tem um grande impacto nos lençóis freáticos o que ocasiona problemas com o abastecimento de água, assim como o desmatamento também altera o fluxo dos rios e a quantidade de água disponíveis nas lagoas para consumo o que obriga a trazer de locais cada vez mais longe.

O tipo de sedimentação das nossas praias é de uma formação bem frágil o que torna muito sensível a qualquer mudança nesse ambiente. Um bom exemplo é a Praia da Armação ao sul da ilha onde muros foram construídos aonde as ondas chegavam e se espalhavam cumprindo o ciclo das marés, o que faz com que a arrebentação da onda passa a ocorrer em local muito mais distante do que viria a ser o da formação natural.

Praticamente todos os anos temos enormes problemas de desmoronamento de casas e muros por conta de marés cheias, e cada vez mais tentam conter com enormes quantidades de pedras e concreto, ato esse que atende a necessidade por muito pouco tempo pois cada vez mais as ondas vão quebrar próximo a essas estruturas.

A formação de nossas encostas também é outro assunto que deve ser levado em consideração, pois com o excesso de urbanização praticamente toda a cobertura vegetal para construção de moradias e vias de acesso, ficamos com solos muito propícios aos deslocamentos de terra e enxurradas devido à ausência de da vegetação natural.

Atualmente são constantes os avisos dos órgãos ambientais e Defesa Civil quando da previsão de fortes chuvas por um período maior e grande concentração pluviométrica, causando grandes preocupações e prevendo deslocamentos rápido caso ocorra algum acidente. Nem sempre se tem conseguido esse tempo como aconteceu agora no mês de janeiro na comunidade do Saco Grande onde uma encosta cedeu levando duas pessoas a óbito.

Concluindo o nosso meio ambiente constituído por muitos morros e os mesmos estão sendo desprovidos de sua vegetação, bem como as margens de rios, o aterro dos manguezais para finalidade econômica e residencial a retirada das dunas para comércio de areia ou construção de vias e moradias tende a chegar em um colapso em muito pouco tempo caso as autoridades não tomem providências quando ao crescimento desordenado que ocorre na cidade.

Ambientes frágeis tem que serem protegidos a qualquer custo para que não se tornem inviáveis o crescimento e o planejamento da cidade, afetando a qualidade de vida que até o momento ainda é o nosso principal produto gerando renda e bem estar, à população que por vários séculos aqui escolheram para morar.

 

Paulo Coelho – Florianópolis – SC  14/02/2021

Grande abraço à todos

 


MESSIÂNICOS & BANDOLEIROS IDENTIDADE, MEMÓRIA E APROPRIAÇÃO DA TERRA

Ontem dia 15 de novembro de 2020, terminei de ler o meu 16º livro do ano e como fiz nos demais livros que eu li vou apresentar um breve comentário sobre o mesmo.

O livro em questão é  Messiânicos & Bandoleiros Identidade, memória e apropriação da terra em um grupo remanescente do Contestado, do Sociólogo Pedro Martins editado pela Brazil Publishing, 2020.

Quando em março de 1996 eu fui ao lançamento do livro Anjos de Cara Suja do mesmo escritor, livro esse que a partir de um projeto de Mestrado em Antropologia Social narra a Saga de um grupo de Cafuzos remanescentes da Guerra do Contestado 1912-1916 não imaginava e também não me dei conta na época que em alguns momentos o livro narra parte da história de vida do escritor e da minha história também. Ambos somos migrantes filhos de agricultores que ao sair de Vidal Ramos SC que vieram para a capital do estado em busca de melhores condições de vida para seus filhos que não eram poucos.

O livro Messiânicos e Bandoleiros, nos traz a história desse grupo mesmo com alguns ingredientes a mais fruto de diversas pesquisas e visitas (incluindo moradia junto ao grupo em questão) realizadas em função de outra titulação agora de Doutorado.

Os Cafuzos que hoje estão assentados em um reserva em José Boiteux, alto vale do Itajaí no estado de Santa Catarina portanto no sul do Brasil, remanescentes da Guerra do Contestado que ocorreu entre 1912 e 1916 na divisa de Santa Catarina com o estado do Paraná, uma guerra muito violenta e totalmente desproporcional em relação ao aparato empregado pelas tropas federais, grandes empresários e mercenários contratados por uma grande empresa norte americana contra um grupo de Caboclos maltrapilhos e famintos que somente queriam garantir um pedacinho de terra para poderem plantar e criar os seus filhos.

Quando do fim da guerra muito dos Caboclos se esconderam no mato a fim de preservar as suas vidas e de seus filhos e com isso foram caçados e quando encontrados, eram assassinados como se bicho fossem.  Parte desses Caboclos sobreviveram a fome e ao extermínio, aos poucos foram se agrupando e resolvem fazer a primeira migração levando consigo basicamente a roupa do corpo e um ou outro utensílio de uso pessoal como facão, espingardas ou equipamento de uso agrícola.

Atravessando o Planalto Norte chegam em Alto Faxinal no munícipio de Ibirama no vale do Itajaí. Ficam por aproximadamente quarenta anos nesse local até que são obrigados a deixar o local devido a um projeto de Colonização que o governo de Santa Catarina fez com uma empresa colonizadora chamada Hanseática e com isso a comunidade inteira foi deslocada para o interior do Posto Indígena (PI) localizado em Ibirama SC levando a um segundo deslocamento.

Ao serem deslocados par ao interior da Reserva Indígena os mesmos Cafuzos são obrigados a servir de mão de obra compulsória para os administradores da reserva e também para os indígenas ou seja, praticamente escravos do século XX.  Essa condição se manteve por aproximadamente mais quarenta anos e o sonho da terra própria nessa altura já está próximo a oitenta anos desde a Guerra do Contestado.

Com o projeto do Pedro Martins lá na metade da década de 1980, foi dado continuação ao sonho da tão esperada “terrinha” para poder chamar de sua e criar os seus filhos. Foi feito um projeto de assentamento com a finalidade de terra uma reserva própria em virtude de suas características etnográficas e seu modo de vida próprio, o que não estava muito compatível dentro da Reserva Indígena. Muitas viagens aos órgãos federais e estaduais em Florianópolis e também até em Brasília foram realizadas para apresentar o projeto e a entrega de documentos e levantamentos etnográficos sobre esse grupo específico do sul do Brasil visando a criação de uma reserva própria.

Mais adiante Pedro teve grande auxílio em seus estudos da sua companheira que também é socióloga Tânia Welter (minha grande amiga) que também passou a estudar esse grupo obtendo informações valiosas entre as mulheres que normalmente não seriam contadas o sociólogo e vice versa.

No início da década de 1990 a tão sonhada terra passa a ter dono e um terceiro deslocamento é realizado no Alto do Rio Laeiscz no município de José Boiteux. Hoje em 2020 a comunidade já está com um número reduzido de habitantes mas ainda produzindo para sua subsistência e venda de algum excedente tem escola em seus domínios até as séries primárias e depois as crianças complementam seus estudos na sede do município.

Uma das conquistas desse grupo quando da posse da terra foi de que ela é indivisível ou seja não tem titulação para cada um dos membros e sem a titulação de uso coletivo para evitar que as futuras gerações tenham que refazer os caminhos dos seus ancestrais em busca da terra. Modo esse que sempre foi aprovado pelos mais velhos que chegaram a passar pelas dificuldades e deslocamentos forçados. Claro que alguns principalmente os mais jovens tinham interesse de que a titulação ou posse fosse de forma individualizada.

Conforme falei lá no início desse pequeno comentário de um grande projeto que aqui não é o ambiente adequado para textos muito grandes (que já acabei me excedendo) digo que me senti em parte dentro da história desse grupo pois quando o Pedro e a Tânia falam sobre modos de vida  dos Cafuzos seus hábitos de comida e costumes ligados a negócios e trocas, vejo a minha mãe falando em Bolo de Boleira para o que os de origem alemã chamam de Wafle, vejo também o meu pai contando os causos de criação de porcos e galinha para trocar por outros produtos.

Vou ficar por aqui com a promessa de trazer outros assuntos e histórias relacionadas a esse grupo que são contadas, nos dois livros que falei e também a Dissertação de Mestrado e a Tese de Doutorado da Tânia para fragmentar mais esse assunto.

Grande abraço à todos.

Florianópolis, 16 de novembro de 2020. Paulo Coelho